10 outubro 2013
Você acaba de perder a mulher da sua vida.
Eu tenho uma notícia não muito boa pra te dar. Meu amigo, você foi um grandíssimo filho da puta com ela, pelo o que parece. Não sei muito bem da história, mas sei dela. Sei que ela se escondeu de todo mundo por uns dias e chorou tanto que o rosto ficou inchado e os irmãos mais novos tinham medo de que ela morresse de alguma doença que transforma os outros em zumbis. E ainda tem o fato de que ela nunca soube lidar direito com rejeições amorosas. Ah, a menina é linda e mimada, você esperava o que? Ela é bem do tipinho que esnoba, esnoba e esnoba mais um pouco. Até que aparece um imbecil qualquer e se desinteressa por ela. Esse ponto da história é importante, veja bem: você se desinteressou por ela. Não houve interesse imediato e muito menos falta de interesse. Foi aquela coisa de olhar e pensar “bonitinha, arrumadinha, todo mundo quer, mas e daí”? Mal sabe você como essas gurias têm um faro aguçado para o desinteresse nos dias de hoje, meu amigo. E daí você cruzou a história dela.
Não sei muito bem o que ela pensou na hora. O relato não diz muito sobre isso. Mas eu sei que ela viu alguma coisa em você que lembrava um pouco dos babacas por quem ela já se apaixonou. Meu amigo, você não sabia nada sobre ela, não é mesmo? Aquela guria devia estar na faculdade ainda enquanto você já tocava violão, guitarra e baixo e ouvia um pouco de folk britânico nos finais de semana. Ela devia se preocupar em estudar para alguma prova enquanto você já pensava em como ganhar a vida e pagar o aluguel do seu apartamento. Pode falar a verdade aqui: aquele papinho de que ela era a mulher perfeita pra você era só porque ela te tirava do tédio, não era? Bom, foi o que ela disse. Mas ela limpou o rosto depois do episódio com os irmãos e a coisa toda de zumbis. E olha, parece que até viajou pela Europa pra aproveitar o clichê todo que foi ter que te esquecer.
Cá entre nós: o que você fez pra ela? Ah, sim, seu crime inafiançável foi a insensibilidade. Teu problema foi querer e querer e querer e nunca estar satisfeito com nada. Cruel, hein rapaz. Isso não se faz com mulhernenhuma. E você foi tão idiota em não perceber que foi uma baita sorte encontrar com ela por aí e ela ainda te notar. Agora ela já voltou e disse que não precisa mais de você. E você não deixou nenhuma marca, cicatriz ou sequela. Ela me disse que vai achar um cara legal que queira alguma coisa. Esperança bonita a dessa garota, hein.
E ela não era do tipo pra se conformar, meu amigo. Era do tipo que rendia uma história, dois livros e muitas noites bem vividas. Babaca! Opa, usei a exclamação sem querer. Veja só, ela anda melhor que antes. De infantil a mulher crescida. Nada que uma decepçãozinha não faça. Os pais se espantaram quando a menina mimada decidiu se formar logo e bancou o próprio apartamento. Não se fez de difícil pra vida, não. Levantou, sacudiu a poeira e pegou a liberdade dela. E tem encontrado caras legais e histórias fantásticas por aí. Bem, isso é o que diz essa carta que eu encontrei dentro de um livro na biblioteca. Não conheço a menina, mas pelo o que ela me diz aqui, ela está bem melhor agora. E quem perdeu foi você, meu amigo. Você acaba de descobrir que perdeu a mulher da sua vida.
Louca e desvairada.
Dessa vez não tem “meu bem”, “meu amor”, “meu anjo” ou nenhuma dessas expressões de ternura que eu sempre usei com você. É mais um daqueles meus desabafos de quem está cansada de esperar e ouvir promessas vazias (ou até algumas cumpridas). Na verdade, não é bem cansaço, é constatação. Sei lá, chega uma hora que a gente tem que tomar umas decisões e jogar fora ou invalidar velhas escolhas. Dessa vez a minha escolha recai sobre você.
É tão difícil assim entender que eu não vejo mais por que eu me apaixonei por esse cara de 1,80m que sempre me chamou de “minha pra sempre”? A gente cresce, tenta, sofre, sorri e cansa. Eu simplesmente cansei. Mas era um risco a se correr com toda essa coisa de eu dar mais valor a mim mesma do que aos outros. Não é egoísmo, não. É independência. E você esteve do meu lado até que começaram as brigas e a gente desandou. Normal, isso acontece com todo mundo, inclusive com a gente. E chegou num ponto em que remendo nenhum salvaria a gente de um naufrágio. Mas você insiste em me dizer com esses seus olhos azuis insuportavelmente claros que a gente ainda pode dar certo. Entende uma coisa, rapaz: acabou. Eu ainda gosto de você e você sente a minha falta. Mas acabou. Não adianta de nada a gente tentar colocar reticências no lugar de um belo ponto final e guardar tudo o que aconteceu em moleskines velhos engavetados no meu quarto. Eu acho que o melhor é deixar as coisas no passado e lembrar delas como algo bonito que passou. Melhor que ficar tentando requentá-las no microondas e sofrer o desgaste iminente.
O sexo era bom, você sabia onde tocar e a gente se divertia horrores. Eu sei que a gente se conheceu lá pelos meus 16 anos quando eu era uma rebelde incurável do ensino médio. E depois teve aquela nossa viagem pra Inglaterra onde todo mundo queria te deixar sozinho no quarto do Hotel porque você era meio estranho e tímido demais pra enlouquecer com a gente e com as drogas da estação. Mas já te disse que só usei uma ou vinte vezes aqueles velhos baseados que a nossa turminha costumava gostar. A nossa primeira vez foi exatamente naquele dia em que eu voltei correndo na chuva pra buscar a minha bolsa e você me esperou na esquina, me puxou pela mão, me jogou dentro do carro e levantou o meu vestido vermelho (e eu me lembro que a cor do seu rosto era da mesma cor do meu vestido). Mas viu? Passado é passado e a gente tem que desalojar o outro da nossa vida. Eu vou buscar minhas coisas na segunda-feira, você pode assistir ao jogo lá em casa. Eu não ligo. Só não quero mais ter que dividir a chave com um estranho.
E daí você me pergunta por que você se tornou um estranho da noite pro dia? E eu te digo que não estou falando de você. Estou falando da estranha que eu me tornei. Essa mulher de fibra, reconhecida pelos seus diplomas e pelo seu péssimo gosto pra restaurantes italianos, que se guardou numa redoma de vidro e decidiu viver um mundo de fantasias que éramos nós dois. Eu te amei sim. Agora é hora de olhar para frente, comprar umas roupas novas, reclamar da solidão nos dias de chuva e pegar a estrada pra praia nos dias ensolarados. Nós vamos acabar nos tornando amigos. Você sabe disso porque nós sempre fomos assim. Só que eu, maluca, destrambelhada, complexa, bipolar e mais cheia das certezas do que nunca, sei que agora eu quero ser minha, só minha e não de quem quiser.  Agora as coisas vão ser do meu jeito, da forma que eu quiser. Eu posso estar enganada quanto a tudo isso e quanto a nós dois. Eu posso estar sofrendo uma daquelas crises de quando a gente chega aos vinte e tantos anos e não sabe ainda o que quer da vida. Eu posso te ligar amanhã pedindo desculpas por tudo e pedindo pra você voltar correndo e me abraçar no sofá lá de casa.
Só sei que agora eu vou viver à minha maneira. As coisas vão ser do meu jeito louco e insuportável. Do meu jeito leviano e um tanto quanto sério de me cobrar as coisas. Da forma mais tranquila e serena de ver o mundo enquanto um furacão passa pela nossa vida. Não vou te pedir desculpas, não. Porque daqui a algum tempo a gente se encontra. E vai que eu me apaixono de novo por você e por mim mesma? Eu sei que sou doida de pedra. Mas eu sou assim: a mulher da sua vida.
Para desentender as mulheres.
Para desentender as mulheres é preciso acordar cedo alguma vez na vida. É preciso passar uma noite inteira em claro e roer todas as unhas de uma única vez por nervosismo. É saber que ela não vai ligar, mas vai ligar assim que você desistir. É preciso abraçar um garçom, uma punhada de amigos e umas trocentas garrafas de algum destilado fatal. Para desentender as mulheres é preciso ter passado algumas horas com Neruda, Pessoa e Moraes. É preciso de tudo, ser atento ao seu amor. É extremamente preciso acordar atrasado e ter uma vasta gama de desculpas para convencer qualquer juiz a não decretar sentença de morte.
Para desentender as mulheres é preciso renunciar o filme de ação e chorar feito uma menininha enquanto Marley é enterrado. É se fazer de forte na frente dos outros e guardar as inseguranças num cofre que quase ninguém tem acesso. Para desentender as mulheres é preciso ir em frente, dar meia volta, esperar que o espelho dê consentimento e estar sempre disposto a esperar por toda e qualquer ocasião especial que demande tempo. É saber que o jogo está ganho e perder no último minuto. É achar que não tem mais jeito e conseguir um gol de placa aos 45 do segundo tempo. É preciso abrir mão de ser só seu e ser de uma, duas, mil e uma ao mesmo tempo. É preciso entender que todas elas coexistem e que tudo o que você disser será usado contra você mesmo.
Para desentender as mulheres é preciso ser do contra e achar que as entende. É escrever manual pra poeta, pra compositor e pra artista. É ensinar a cada um deles uma essência diferente, um rabisco original. Para desentender as mulheres é preciso se enganar a cada dia e recuperar o fôlego depois de uma caminhada pelo caminho errado. É preciso saber dançar muito bem e não admitir isso. É preciso pisar em pés e achar graça dessa forma de se mover que mais parece uma ciranda. Para desentender as mulheres é preciso ter olhos fechados e peito aberto. É navegar por um mundo desconhecido em busca de algo que você conhece bem. É reconhecer pernas, coxas, panturrilhas em olhos calmos ou tempestuosos. É abrir mão da realidade para viver de literatura. É preciso ser poeta e escrever personagens imaginários para cada noite bem dormida. É contar vantagem sobre uma desvantagem e rir de quando as coisas vão mal. É preciso ser louco.
Para desentender as mulheres é preciso entender de cheiros. É necessário que seja um especialista em sensações e emoções deturpadas. É quase como obrigatório gostar do cheiro do suor delas na sua pele e se deliciar com o fato de que esse cheiro é só delas. Para desentender as mulheres é preciso conhecer Paris, Londres e o Rio de Janeiro. É preciso saber reconhecer  cada pedaço do mundo nas coisas que elas fazem. É ter certeza de alguma coisa completamente incerta e bater pé defendendo uma tese furada. É saber beber vinhos, limpar manchas, tirar roupas e deitar de conchinha sem fazer absolutamente nada. É preciso decifrar o ritmo cardíaco, interpretar a respiração pesada, medir a dilatação das pupilas – ser um pouco médico, talvez. Para desentender as mulheres é preciso ter raiva, ter força, ser um pouco egoísta e não saber lidar com algumas situações. É preciso entender de siglas, de períodos, de chocolates e de flores.
Para desentender as mulheres é preciso decorar esse texto algumas vezes. E esquecer de tudo isso no exato momento em que puser os olhos em uma delas e descobrir que o impossível mesmo é desentendê-las.

Você sabe que não deve fazer cócegas nelas porque a machucam? Sabe a diferença dos seus sorrisos sarcásticos e felizes? Sabe que não deve opinar sobre sua família, nem falar mal dos seus antigos namorados? Só de mim, eu sei. Creio que você não tem ideia do que é dormir com ela. Dormir, não foder. Foder também. Mas dormir. Dormir e acordar ao lado dela. A vida dela é torta. Não se esqueça disso. Ela sempre acorda com sono, mas quase duas da madrugada, fica se remexendo na cama caçando o tal sono que perdeu pela manhã.
Pra ela tudo tem nome de “coisa”. O controle remoto é uma “coisa”. A bolsa é uma “coisa”. O talher é uma “coisa”. Até o cachorro é uma “coisa”. Certa vez, ela disse mô-tô-sentindo-uma-coisa-estranha. Pra mim era um mau pressentimento. Ou fome. Ou cólica. Sei lá. Era amor. Amor-coisado, ela disse.
Ela é toda sinais. Corta o cabelo quando quer mudar de vida. Mais de cinco centímetros é porque ela quer revolucionar o mundo. Cuidado nesses momentos. As cores das unhas e das lingeries determinam sua libido. Quando põe batom, pensa em beijar. Brilhos nos lábios também. Saiba disso, cara.
Mas ela também sabe fingir. Vai fingir não se importar, ser forte, ser sabida ou esperta. Vai fingir até que não precisa de você, mesmo quando ela estiver com trinta e nova de febre e batendo recordes de espirros por segundo. Não ligue. É porque ela não quer que você a encontre com o nariz todo vermelho, tossindo feio e com a garganta inflamada. Mesmo sem ela deixar, vá visita-la e cuide dela. Por mim e por você.
Ela fuma quando fica brava ou quando bebe. Bebe quando quer, sem ocasiões especiais. Certo dia acordou num domingo bebendo vodca no café da manhã. Mas ela sabe aproveitar um belo achocolatado também. Vai parecer durona, vez em quando. Mas é menininha, vai por mim. Faça carinho na bochecha. Ela não irá resistir.
Ela não se importará em dividir a conta. Caso você proponha pagar tudo, ela não deixará, mas mesmo assim ficará feliz com a tua atitude. E com um tempo, ela irá pagar a conta também. Muito provavelmente, em alguma quarta-feira qualquer, irá te ligar no meio do expediente só para te passar uma notícia boa e vai dizer quer deseja comemorar no restaurante predileto dela: o japonês na esquina de sua casa. Vai se impressionar com um tanto que ela consegue comer por segundo. Ela gosta de molho teriaki e de sashimi. E não sei se já aprendeu a comer com hashi. Acho que não. Ofereça ajuda.
Ela é tão homem quanto todos os homens. Gosta de coxas, bunda, barriga e virilhas. Quando vai à praia, costuma reparar no volume das sungas alheias e comentar com amigas. Mas ela se apaixona mesmo é por bocas. Lábios, sorrisos, mordiscadas e palavras.
Quase sempre apaixona-se por homens de humanas. Adora ouvir sobre psicologia, política, literatura e cultura pop. Mas não fale feito um tolo. Saiba ouvir também. Caso você ainda não esteja apaixonado por ela, vai ficar encantado quando ela começar a falar sobre suas poesias, Rimbaud, Manoel de Barros e sobre sua vontade de se entender. Ela vive num eterno questionamento sobre si. Faz besteiras e logo se arrepende. Mas acredita que todo erro existe para a aprendizagem. Não a julgue por isso. Nem tente entendê-la.
Por fim, apenas entenda e aprenda que sem ela, você será como eu: um prisioneiro eterno das lembranças.
Uma crônica breve sobre aquele sentimento de saudade
Mais uma vez ele viu o relógio mudar rapidamente de 6 para 7 os minutos da quarta hora da madrugada. Apesar da quase rotina, esse hábito ainda causava um certo desconforto; parecia haver hora certa para lembrar dela. Balbuciou o palavrão de sempre, estalou os dedos e procurou os óculos no escuro. Já previa a dor nos olhos antes mesmo de acender a luz, então decidiu descer a escada no breu mesmo. Abriu metade da janela, observou a chuva por alguns minutos, lembrou das noites chuvosas ao lado dela, lembrou do vidro embaçado e da música suave das gotas atingindo-o, lembrou do edredom roxo ou violeta ou púrpura – nunca soube qual a verdadeira identidade cromática do negócio e também não levou o assunto à ela – e do cachorro dormindo embaixo da cama. Lembrou dela, do sono dela, da maneira como os olhos dela se apertavam quando ela dormia, das asas redondas do nariz, dos lábios finos convidando-o para um beijo. Lembrou do cheiro da respiração dela e respirou profundamente, como que querendo encontrar tal cheiro no ar. Falhou.
Foi acordado do sonho-acordado por uma distante sirene de polícia, andou lentamente até o fogão e aqueceu uma medida de leite. Enquanto aguardava, reparou na quase dúzia de folhas de caderno escritas e rasuradas e espalhadas na mesa numa ordem que somente ele entendia. E nessas folhas, palavras que somente ela entenderia.
Sonhou de novo, e dessa vez com os vários bilhetes que escondeu pelo quarto dela, bilhetes recheados de pequenas juras e promessas e micro-elogios que arrancariam dela aquele sorriso que só ele conhecia, bilhetes assinados pela metade, que mostravam o quão inteiro ele era com a metade dela. Acordou novamente, dessa vez com o cheiro de leite fervendo, xingou a vaca, disfarçou muito mal um sorriso, terminou de preparar o capuccino e aqueceu a garganta com goles curtos. Era normal esquecer do mundo quando se lembrava dela. Era comum.
Largou a xícara na mesa, apagou a luz e, antes de voltar à cama, viu a luz amarela e deprimida de um poste atravessar a janela e repousar na cadeira ao lado. Como previsto, sentiu o costumeiro aperto no peito e também a solidão tocar-lhe os ombros. Tudo naquela casa lembrava dois, à dois, os dois, mesmo sem nunca ter existido dois naquele espaço. Repare bem: naquele espaço. A cadeira vazia servindo de repouso para o violão, o número de talheres e pratos e copos, a mesa redonda e pequena, o box do banheiro, a cama de solteiro (para dormirem mais próximos). Sentiu o chão gelado abaixo dos pés e desejou os pés dela colados nos dele. Voltou pra cama, olhou a foto dela na tela do celular, rezou por ela e reclamou consigo mesmo, com seu próprio deus, sobre as lágrimas que se acumulavam nos cantos dos olhos contra sua vontade. Alguns minutos depois da quarta hora da madrugada, ele tirou os óculos e os deixou no chão mesmo; ela não estaria ali para pisar neles meio que por engano. E como esperado, não dormiu.
Carta pra você (que ainda não chegou)
Olha pra mim e diz que chegou. Eu já ando cansado de bater de porta em porta, sempre tentando, sempre com um sorrisão na cara e um buquê de flores ou um vinho desconhecido pra brindar por solidões individuais que ainda não se destacaram na multidão. Percebe em mim alguma coisa mágica, um olhar no metrô, a forma como eu viro uma página de livro, os sapatos engraxados com afinco doentio e todos esses pequenos detalhes-ganchos que eu espero que você pesque.
Cuida de mim e diz que eu posso descansar a cabeça no seu colo durante a viagem de ônibus, ou conta comigo pra pousar a mão na sua coxa e assobiar feito passarinho a música do rádio num carro. Cuida e me olha de novo pra me enxergar. Já passou tanta gente que me olhou uma, duas, muitas vezes que eu já nem conto mais. E toda essa gente me atravessou o peito como se nunca tivesse me enxergado direito, entende? Por isso que eu me sinto feliz ao primeiro sinal de que você vai me enxergar e dizer que reparou numa pinta escondida por trás da barba e por trás da casca pra me chamar de teu.
Repousa em mim e se esboça aos poucos. Escorrega comigo pelos braços, pelos pelos e pelas pernas e vai se desenhando aos poucos, em torno de mim enquanto me rabisca com giz de cera. Dá tempo de apagar alguma listra que a gente não gostar e rabiscar, rabiscando a gente se entende e manifesta aquele desejo infantil de se fazer entender de forma prática. Me desenha um sol e me chama de meu bem? É que ninguém nunca me chamou assim e eu sinto um carinho grande, desses de abraço de urso, quando alguém chama alguém assim – só que nunca fui eu.
Não entenda esses pedidos todos como receita pronta de bolo, por favor. Nem vai achando que eu sou um desses mandões-carentes-abarrotado-de-sonhos porque disso tudo eu só tenho sonho. Tenho sonho-esperançoso, bem bonito mesmo, de poder ser feliz vendo você sorrir. Você que já chegou e nunca olhou pra mim ou você que eu juro, prometo e espero ainda conhecer num ônibus vazio com muitos lugares pra dois – com você sentando do meu lado e me escolhendo pra meu par. Dizendo algo como “toma aqui o meu amor e constrói tuas coisas junto das minhas, e não à volta dele”. Toma aqui o meu e vamos ser feliz (porque eu te juro, é o que eu sempre quis desde que eu era pequeno e queria crescer).
Eu acho que no fundo é o que essa gente toda quer. Aquele amor por acaso, sem grandes firulas ou novelas mexicanas, pra trocar o drama por carinho. Por isso que eu ainda tenho esperança, uma esperança simples de te achar numa dessas vezes em que tocam minhas campainhas.
Vem ser feliz comigo e desembaça esse óculos. Bate na minha porta e enxerga o meu rosto, as minhas rugas (ainda) finas, as entradas sendo cavadas no cabelo e alguns fios brancos aparecendo, bate na porta e não me pede açúcar, me pede pra dividir um sonho bom e uma vida doce contigo. Eu controlo naturalmente pra não deixar a gente com diabetes. E jura, mas só se quiser, se sentir de verdade, que vai me amar até amanhã de manhã quando acordar desse sonho bom. Ri da minha cara de sonho e dessa vez me abraça, me abraça como eu sempre quis abraçar alguém numa tentativa otimista de encontrar você, que eu ainda não encontrei.
Minha ressaca de você
Eu andei bêbada de você. Agora, o meu porre é pela sua falta. É pelas ligações que você não faz, pelas mensagens que não responde, pela reconciliação que não está disposto a ter. O meu porre é pelo carinha de xadrez no canto esquerdo do salão que não para de me olhar. E pela vontade que eu continuo tendo de que você resolva não me esquecer, enquanto olho no celular pela milésima vez na noite. Minhas amigas insistem que eu já bebi demais por hoje. Mas tento dizer para elas que as dores de cabeça, as olheiras e o enjoo da vida não têm nada a ver com o álcool: tudo isso foi o seu adeus que rendeu.
Alguém derruba tequila na minha blusa preferida, alguém pisa no meu pé e alguém me empurra no meio da música da Anitta. Depois, alguém simplesmente rouba o copo da minha mão e me beija. Não é você. Mas, enquanto você se mantém longe, eu deixo que ele invada a minha boca. E deixo que passeie com as mãos por lugares do meu corpo que você jurava, até ontem, que eram seus. É uma forma inconsciente de dizer: olha só, tão me roubando de você.
Enquanto me roubam do nosso passado, porém, é da sua sala que eu me lembro. Debaixo daquela almofada verde que fica no seu sofá, tem uma marca de cigarro que eu deixei nos nossos primeiros meses juntos. Qualquer dia, você bate o olho na mancha e se lembra de mim. Aquele creme que eu costumava passar nas suas costas quando te fazia massagem está na segunda prateleira do seu banheiro. E a comida no armário da cozinha fui eu que comprei. Deixei minha marca pela sua casa inteira, para você esbarrar comigo em cada hora do seu dia.
Eu vou esbarrando com você por aqui. Quando sinto meus pés doendo pelo salto que desacostumei a usar, lembro que nós dois não costumávamos sair. Eu ficava feliz em vestir sua camisa e passear descalça por seu apartamento de três cômodos, enquanto você tentava compor mais uma música que não iria para as paradas de sucesso. Eu era completamente louca pela sua voz, pelos seus acordes e pelos seus silêncios. Eu era completamente louca por você também. (E, boba que era, achei que era recíproco).
Cansada de lembrar de você, e com álcool e memórias demais no meu sangue, eu entro em um táxi qualquer e vou embora. Você ainda não se lembrou de mim. Ou é o que quer fingir, porque eu também já soube que você andou perguntando como eu ando para os nossos amigos em comum. Eu, por outro lado, lembrei como eu andava quando estava ao seu lado. Uma menina acuada pelos seus gritos, calada pelos seus ciúmes excessivos, diminuída pelas suas opiniões autoritárias. Todos os seus erros já passaram pela minha cabeça, e eu já me arrependi de você.
Eu chego em casa, me jogo na cama do jeito que estou e decido: acabou. Esse é o último porre que tomo de você e por você.

eu

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Quem sou eu

Oi, eu sou a Stephany Poubel e esse é oficialmente meu cantinho na internet. Hoje tenho 20 anos e moro no Rio de Janeiro. Sou formada em Gestão de Recursos Humanos, mas meu sonho mesmo é ser escritora. Minha vida às vezes parece roteiro de filme e eu adoro escrever, sempre gostei de compartilhar com outras pessoas o bom da vida. Sou apaixonada por musculação, porém minha dieta não é totalmente balanceada. Minha base é minha família, porém são eles que me apoiam. Meu blog se transformou num lugar onde compartilho as coisas mais legais que vejo por aí, e sempre serei uma eterna aprendiz!

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